Nem tudo o que você sente começou em você
- Souyogui
- 6 de jul.
- 4 min de leitura
Atualizado: há 5 dias
Como o ambiente, as pessoas e o sistema nervoso influenciam suas emoções.
Imagine começar o dia tranquilo, você acorda bem, toma café da manhã sem pressa e sai de casa sentindo que será apenas mais um dia comum.
No caminho alguém grita de forma agressiva, você entra em uma fila onde as pessoas demonstram impaciência. No trabalho, um colega chega irritado e claramente preocupado. Antes do almoço, você lê algumas notícias negativas no celular. À tarde participa de uma reunião tensa. Quando volta para casa, percebe que está irritado, cansado ou inquieto, embora nada de realmente grave tenha acontecido diretamente com você.

É comum imaginar que esse estado nasceu dentro de nós, mas será que nasceu?
Ao longo do dia, nosso organismo faz um trabalho silencioso. Enquanto prestamos atenção às tarefas, ele continua observando expressões faciais, mudanças no tom de voz, ritmos acelerados, ambientes barulhentos, excesso de estímulos e até pequenas alterações na maneira como as pessoas respiram, caminham ou ocupam um espaço.
Grande parte dessa leitura acontece tão rapidamente, que mal conseguirmos descrevê-la em palavras. Talvez por isso seja tão difícil perceber quando um estado interno, como irritação, começou a mudar.
O corpo costuma perceber primeiro, quando permanecemos por muito tempo em ambientes tensos e estressantes, diferentes sistemas do organismo, como o sistema nervoso, respondem em conjunto. A respiração pode ficar mais curta, a musculatura mais contraída, a atenção passa a procurar sinais de ameaça e o corpo permanece preparado para reagir, mesmo quando já não existe um perigo imediato.
Sem perceber, também começamos a fazer escolhas diferentes.
Começamos a respirar rapidamente.
Respondemos com irritação.
Temos insônia ou dormimos pior.
Adiamos uma caminhada ou movimentos conscientes.
Escolhemos refeições apenas porque parecem exigir menos esforço.
A vida continua igual por fora, mas por dentro vários pequenos ajustes já começaram a acontecer. Isso não significa que fracassamos, muito menos que somos responsáveis pelo estado emocional de todas as pessoas ao nosso redor. Significa apenas que somos seres profundamente relacionais.
Sistema Nervoso e as Emoções
Assim como um sorriso sincero pode trazer leveza, um ambiente constantemente acelerado, crítico e irritadiço também podem influenciar a maneira como nosso sistema nervoso funciona ao longo do dia. Talvez você já tenha percebido isso sem dar muita importância. Depois de alguns minutos conversando com alguém muito ansioso, parece que o corpo também acelera. Quando acompanha um jogo eletrizante seu coração dispara. Após horas acompanhando notícias difíceis, pequenas situações começam a parecer maiores do que realmente são. Assim como ao entrar em um lugar silencioso, respiramos de outra forma quase sem perceber.
O ambiente participa daquilo que sentimos muito mais do que costumamos imaginar.
A boa notícia é que essa influência não acontece em apenas uma direção. Da mesma forma que absorvemos o ambiente, também podemos aprender a reconhecê-lo antes de responder automaticamente a ele.
Fazer uma pequena pausa em diversos momentos do dia muda muita coisa. Quando deixamos de perguntar apenas “o que estou sentindo?” e começamos a perguntar “o que aconteceu antes de eu me sentir assim?”, tomamos consciência para uma forma diferente de perceber a nós mesmos. Essa pergunta interrompe o piloto automático, amplia a atenção e ajuda a diferenciar aquilo que pertence à nossa história daquilo que apenas atravessou o nosso dia.
Sabemos que isso não elimina todo o desconforto ao longo do dia, mas devolve uma possibilidade de escolha. E, muitas vezes, é exatamente essa escolha que impede que um estado passageiro, muitas vezes absorvido de ambiente externo, se transforme em uma rotina e influencie seu estado físico e mental.
Na Souyogui, acreditamos que autocuidado também é aprender a perceber essas relações invisíveis. Nem tudo o que sentimos nasce apenas dos nossos pensamentos.
O corpo conversa com os ambientes, sem que percebamos.
As relações cotidianas deixam marcas, muitas vezes doloridas.
As notícias que consumimos influenciam a forma como percebemos o mundo.
A alimentação, o movimento, o descanso e a qualidade das conexões humanas também participam dessa conversa silenciosa.
Quando começamos a enxergar essas relações, deixamos de lutar apenas contra sintomas e passamos a compreender melhor a experiência de estar vivo nesse mundo.
Convidamos você ao longo dos próximos dias, a experimentar uma pequena mudança.
Antes de concluir que um estado emocional define seu temperamento ou quem você é, faça uma pausa e pergunte: “Isso começou em mim ou chegou até mim?”
Talvez essa pergunta revele algo que estava presente há muito tempo, mas ainda não havia sido percebido.
Continue esta experiência
Nesta semana, a proposta da Souyogui continua em quatro pequenas experiências que se complementam em nosso Canal do WhatsApp.
Movimento Souyogui — Retornando ao Centro
Uma prática breve para perceber quando o corpo começa a responder ao ambiente e reencontrar seu próprio ritmo.
Receita Souyogui — Pão do Reencontro
Uma refeição simples, acolhedora e possível para os dias em que cuidar de si precisa caber na rotina.
Experiência Souyogui
Uma reflexão para acompanhar você durante toda a semana:
“Isso começou em mim ou chegou até mim?”
Recurso Souyogui
Uma recurso para permanecer diante dos seus olhos ao longo da semana e lembrar que nem tudo o que você sente nasceu dentro de você.
Para quem deseja se aprofundar
Este artigo foi construído a partir da integração de diferentes áreas do conhecimento que investigam como relações, ambientes, corpo e comportamento influenciam a saúde e o bem-estar.
📚 Leituras recomendadas
Hatfield, E.; Cacioppo, J.; Rapson, R. – Emotional Contagion.
Obra clássica que descreve como estados emocionais podem ser compartilhados entre pessoas por processos automáticos de percepção e interação.
Ader, R. (ed.) – Psychoneuroimmunology.
Referência fundamental para compreender as relações entre processos psicológicos, sistema nervoso, sistema imunológico e saúde.
American College of Lifestyle Medicine.
Publicações sobre como ambiente, relações, alimentação, movimento, sono e manejo do estresse influenciam o funcionamento integrado do organismo.
Richard J. Davidson.
Pesquisas sobre emoção, atenção e treinamento mental mostram como experiências repetidas moldam a atividade cerebral e influenciam a forma como percebemos e respondemos ao mundo.
Stephen W. Porges – Teoria Polivagal.
Contribuições importantes para compreender como o organismo responde a sinais de segurança e ameaça presentes nas relações e no ambiente.


